Penalva de Alva
Uma antiga vila nas margens do Alva, com séculos de história e identidade
Penalva de Alva é uma das localidades de maior interesse histórico e paisagístico do concelho de Oliveira do Hospital. Implantada nas encostas e na margem direita do rio Alva, a poucos quilómetros da cidade de Oliveira do Hospital, possui uma história marcada pela antiguidade do povoamento, pela condição de antiga vila e sede de concelho e pela profunda relação das suas gentes com o rio e com a agricultura.
Conhecida em diferentes épocas como Penalva de Riba de Alva e Penalva de São Gião, a povoação conserva ainda importantes testemunhos da autonomia administrativa que possuiu durante séculos, entre os quais o Pelourinho, a Antiga Casa da Câmara e outros elementos do seu núcleo histórico.
Um povoamento de origens muito antigas
Não é conhecida uma data precisa para a fundação de Penalva de Alva.
As características naturais do território, porém, permitem compreender por que motivo esta zona terá atraído comunidades desde tempos remotos. O vale oferecia água abundante, terrenos férteis e condições favoráveis à agricultura, enquanto as zonas mais elevadas proporcionavam posições naturalmente protegidas.
A própria União de Freguesias refere a antiguidade provável do povoamento e a existência, nas proximidades, de vestígios da presença romana.
O rio Alva tornar-se-ia o elemento estruturante desta ocupação, influenciando a localização das povoações, a agricultura, os caminhos e, muito mais tarde, as atividades de lazer e turismo.
Antes da própria nacionalidade
Um dos aspetos mais interessantes da história de Penalva de Alva é a antiguidade da sua autonomia.
Segundo a informação histórica divulgada pelo Município de Oliveira do Hospital, presume-se que Penalva já beneficiasse de estatuto municipal antes do século XIII e que D. Afonso Henriques lhe tivesse concedido foral quando ainda era Infante, portanto antes de 1140.
Esta tradição coloca as origens da organização municipal de Penalva nos primeiros tempos da própria formação de Portugal.
Ao longo da Idade Média, a povoação consolidou-se como um pequeno centro administrativo, assumindo funções que ultrapassavam o núcleo habitacional e abrangiam territórios vizinhos.
Penalva de Riba de Alva
A proximidade do rio encontra-se inscrita até nas antigas designações da terra.
Durante séculos encontramos referências a Penalva de Riba de Alva, expressão que identificava claramente a povoação através da sua relação geográfica com o Alva.
Surge também a designação Penalva de São Gião, reveladora das relações históricas existentes entre as duas comunidades.
São Gião esteve, em tempos, ligada eclesiasticamente a Penalva de Alva. A própria Câmara Municipal refere que São Gião era filial de Penalva e que, durante o século XVI, existiram disputas entre as duas comunidades, nomeadamente relacionadas com obrigações religiosas e procissões.
São pequenos episódios que ajudam a compreender como funcionavam as relações entre as povoações numa sociedade em que religião, administração e vida comunitária estavam profundamente interligadas.
Uma antiga sede de concelho
Penalva de Alva foi durante séculos vila e sede de concelho.
Esta condição significava possuir estruturas administrativas próprias e exercer funções sobre um território mais vasto.
Quando D. João III mandou realizar o Cadastro da População do Reino, Penalva de Riba d'Alva aparecia entre as diversas vilas ou concelhos existentes na área que atualmente constitui o Município de Oliveira do Hospital.
O território atual encontrava-se, portanto, muito fragmentado administrativamente.
Oliveira do Hospital, Avô, Bobadela, Ervedal, Lagares, Lagos, Lourosa, Nogueira, Penalva e outras localidades possuíam estruturas e jurisdições próprias.
Só as reformas administrativas realizadas muitos séculos depois permitiriam construir progressivamente o município tal como hoje o conhecemos.
O foral manuelino
No início do século XVI, Penalva foi abrangida pela grande reforma dos forais promovida por D. Manuel I.
Segundo a informação histórica disponibilizada pelo Município de Oliveira do Hospital, D. Manuel I concedeu Foral Novo a Penalva de Alva em 14 de abril de 1516.
O foral regulamentava direitos, impostos e obrigações, constituindo um instrumento essencial para a administração do município.
Penalva encontrava-se então plenamente afirmada como vila e centro administrativo regional.
A ligação à Ordem de Cristo
Outro capítulo importante da história local encontra-se na ligação à Ordem de Cristo.
Penalva de Alva foi uma comenda da Ordem de Cristo, instituição que teve enorme importância religiosa, económica e política na história portuguesa.
Fontes históricas locais referem a Comenda de São Tomé de Penalva de Alva, documentando a ligação da povoação àquela Ordem.
Esta relação acrescenta uma dimensão importante à história da antiga vila e ajuda a compreender a organização da propriedade e dos poderes existentes durante a Época Moderna.
O Pelourinho — símbolo da antiga autonomia
Um dos principais testemunhos da condição municipal de Penalva de Alva é o seu Pelourinho.
Localizado junto da antiga Casa da Câmara, no núcleo histórico, o monumento simbolizava a autoridade e autonomia judicial e administrativa da antiga vila.
O Pelourinho de Penalva de Alva encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1933.
Hoje já não possui naturalmente qualquer função administrativa, mas permanece como uma verdadeira memória em pedra do período em que Penalva governava o seu próprio concelho.
A antiga Casa da Câmara e a cadeia
Junto ao Pelourinho encontra-se outro edifício fundamental para compreender o passado da povoação: a Antiga Casa da Câmara.
Era neste espaço que funcionavam algumas das instituições do antigo município.
O edifício esteve associado às funções administrativas e judiciais e possuía também uma cadeia, cujas antigas grades permaneceram visíveis.
A informação histórica da freguesia refere que o edifício foi restaurado em 1758 e que, ao longo dos tempos, recebeu diferentes utilizações, incluindo escola primária e sede da Junta de Freguesia.
Este conjunto formado pela Casa da Câmara e pelo Pelourinho constitui um dos espaços patrimoniais mais representativos da história de Penalva.
São Tomé e a antiga igreja
A vida religiosa da comunidade está profundamente associada a São Tomé Apóstolo, orago da paróquia.
A antiga Igreja Paroquial encontrava-se num local mais elevado da povoação.
Documentação histórica descrevia a sua localização como difícil e isolada, entre terrenos agrícolas e penedias. O estado de degradação do antigo templo acabaria por conduzir à construção de uma nova igreja numa posição mais próxima do rio.
A atual Igreja Matriz
A atual Igreja Matriz de Penalva de Alva, dedicada a São Tomé, é essencialmente uma construção do século XIX.
Foi erguida junto ao Alva para substituir o antigo templo situado na zona cimeira.
Apesar de a construção ser relativamente recente quando comparada com a história da paróquia, conserva no interior património proveniente de épocas anteriores, incluindo esculturas dos séculos XVI e XVII, uma representação quinhentista da Anunciação e uma custódia do século XVII.
A igreja encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Municipal.
É, por isso, simultaneamente um espaço religioso vivo e um importante testemunho da continuidade histórica da comunidade.
Uma terra moldada pelo rio Alva
Se existe um elemento natural inseparável da história de Penalva, esse elemento é o rio Alva.
Durante séculos, as suas águas foram fundamentais para a agricultura e para o abastecimento das populações.
As margens férteis permitiram cultivar terrenos que constituíram uma importante fonte de sustento das famílias.
O rio condicionou também caminhos, pontes, formas de ocupação do território e atividades tradicionais.
Ainda hoje, Penalva de Alva, Caldas de São Paulo e Santo António do Alva desenvolvem-se junto das margens do rio. O planeamento municipal reconhece estes lugares pelo seu elevado interesse paisagístico e turístico.
Agricultura e vida rural
Durante grande parte da sua história, Penalva de Alva viveu essencialmente da agricultura e da criação de animais.
Os terrenos junto ao rio proporcionavam condições particularmente favoráveis ao cultivo, enquanto as encostas eram aproveitadas de acordo com as características do relevo.
Milho, cereais, vinha, oliveira, produtos hortícolas e árvores de fruto integravam a economia familiar.
A agricultura era complementada pela pastorícia, pelos pequenos ofícios artesanais e pelas trocas comerciais com outras povoações.
O ritmo da vida acompanhava inevitavelmente as estações.
Sementeiras, colheitas, vindimas e apanha da azeitona mobilizavam famílias e vizinhos e reforçavam práticas de entreajuda que caracterizaram durante gerações as comunidades rurais da Beira.
Caldas de São Paulo e a tradição termal
Dentro do território histórico de Penalva de Alva merece particular referência Caldas de São Paulo.
A existência de águas termais esteve na origem de uma atividade que, em determinado período, acrescentou uma nova dimensão económica e social à freguesia.
As antigas Termas de São Paulo, atualmente desativadas, constituem ainda um recurso patrimonial e uma memória importante do território.
O próprio Município reconhece a área como possuidora de potencial para desenvolvimento turístico, precisamente devido à existência das antigas termas e à sua localização junto ao rio Alva.
1836 — O concelho aumenta
As reformas liberais do século XIX alteraram profundamente a organização administrativa portuguesa.
Em 1836, o vizinho concelho de São Sebastião da Feira foi extinto e o seu território foi integrado no concelho de Penalva de Alva.
Penalva viu assim reforçada temporariamente a dimensão do seu município.
Contudo, a reorganização administrativa estava longe de terminar.
1853 — O fim do concelho de Penalva de Alva
A grande mudança aconteceu em 31 de dezembro de 1853.
Nessa data, o concelho de Penalva de Alva foi extinto, sendo as suas freguesias incorporadas no concelho de Sandomil.
Terminava assim uma longa etapa de autonomia municipal.
Penalva deixava de possuir Câmara própria e perdia as funções administrativas que exercera durante séculos.
Mas esta nova organização duraria pouco tempo.
1855 — Integração em Oliveira do Hospital
Dois anos depois, uma nova reforma administrativa extinguiu também o concelho de Sandomil.
Em 24 de outubro de 1855, Penalva de Alva passou então a integrar definitivamente o concelho de Oliveira do Hospital.
Este momento é fundamental para compreender a configuração atual do município.
Oliveira do Hospital cresceu precisamente através da incorporação de várias antigas vilas e pequenos concelhos que anteriormente possuíam administrações independentes.
Penalva de Alva é um dos exemplos mais importantes desse processo.
Do século XIX ao século XX
Depois da perda da autonomia municipal, Penalva manteve-se como uma importante comunidade rural.
Durante as últimas décadas do século XIX e grande parte do século XX, a agricultura continuou a constituir a principal atividade de muitas famílias.
Progressivamente, porém, chegaram profundas transformações.
As estradas melhoraram, surgiram novos meios de transporte, generalizou-se a eletricidade e foram criadas redes públicas de abastecimento de água e saneamento.
A educação tornou-se acessível a um número crescente de crianças e jovens e a população começou a encontrar novas oportunidades profissionais fora da agricultura.
Emigração e transformação social
Tal como muitas localidades do interior português, Penalva de Alva foi marcada pela emigração e pelo êxodo rural.
Durante o século XX, numerosos habitantes partiram para os grandes centros urbanos ou para outros países europeus à procura de melhores condições de vida.
A saída da população transformou a estrutura social e económica da freguesia e contribuiu para o progressivo abandono de algumas práticas agrícolas tradicionais.
Ao mesmo tempo, muitos emigrantes mantiveram uma profunda ligação à terra natal, regressando regularmente, recuperando habitações e participando nas festas e iniciativas comunitárias.
Do rio de trabalho ao rio de lazer
Uma das transformações mais interessantes das últimas décadas encontra-se na própria relação com o Alva.
Durante séculos, o rio foi essencialmente um recurso económico: fornecia água, permitia regar campos e condicionava o trabalho quotidiano.
Hoje continua a possuir importância ambiental e agrícola, mas ganhou também uma forte dimensão de lazer e turismo.
As zonas ribeirinhas, praias fluviais, parques de merendas e paisagens naturais tornaram o vale do Alva num dos principais recursos turísticos desta parte do concelho.
O Município classifica Penalva de Alva, Caldas de São Paulo e Santo António do Alva como núcleos com especial vocação para turismo e lazer, precisamente pela qualidade da paisagem natural e construída e pela proximidade ao rio.
2013 — Uma nova organização administrativa
Em 2013, Penalva de Alva viveu outra importante alteração administrativa.
No âmbito da reorganização nacional das freguesias, a antiga Freguesia de Penalva de Alva foi agregada à freguesia de São Sebastião da Feira.
Nasceu assim a União das Freguesias de Penalva de Alva e São Sebastião da Feira.
Curiosamente, esta reorganização voltou a unir administrativamente duas localidades cuja história já se encontrava ligada no século XIX, quando São Sebastião da Feira fora integrada no antigo concelho de Penalva.
A atual freguesia resultante dessa união registou 928 habitantes nos Censos de 2021.
Um património diversificado
Para além do Pelourinho, da antiga Casa da Câmara e da Igreja Matriz, Penalva de Alva e o território envolvente possuem vários elementos de interesse patrimonial e paisagístico.
Entre eles encontram-se capelas, fontes, alminhas, arquitetura tradicional, a ponte sobre o Alva e diferentes elementos associados à antiga organização rural da comunidade.
Este património permite contar diferentes histórias: a administração da antiga vila, a religiosidade, a agricultura, a utilização da água e o quotidiano das sucessivas gerações.
Penalva de Alva na atualidade
Atualmente, Penalva de Alva beneficia da proximidade à cidade de Oliveira do Hospital, encontrando-se a poucos quilómetros da sede do concelho.
Esta localização permite conciliar a tranquilidade e a qualidade paisagística do vale do Alva com o acesso relativamente rápido ao comércio, escolas, saúde e restantes serviços existentes na cidade.
A preservação do centro histórico, a valorização do rio, a recuperação do património e o aproveitamento turístico das antigas Termas de São Paulo representam oportunidades importantes para o futuro.
O grande desafio passa por transformar estes recursos em fatores de desenvolvimento capazes de atrair visitantes, criar atividade económica e contribuir para a fixação da população.
Uma antiga vila que continua a contar a sua história
Penalva de Alva possui todos os elementos necessários para contar uma história que atravessa muitos séculos.
Foi uma comunidade de origens remotas, beneficiou de autonomia municipal desde os primeiros tempos da nacionalidade, tornou-se vila e sede de concelho, recebeu um novo foral no período manuelino e esteve ligada à Ordem de Cristo.
O Pelourinho e a Antiga Casa da Câmara recordam os tempos em que possuía administração própria.
A Igreja de São Tomé testemunha séculos de religiosidade.
As Caldas de São Paulo recordam a tradição termal.
E o rio Alva, sempre presente, continua a atravessar uma paisagem que acompanhou todas estas transformações.
Em 1853 terminou a história do município de Penalva, mas não terminou a história da comunidade. Em 1855 integrou Oliveira do Hospital e, desde então, passou a fazer parte da construção de um concelho que reúne várias antigas terras com identidades próprias.
Penalva de Alva é uma terra onde a História desce até às margens do rio — uma antiga vila que preserva nas suas ruas, monumentos e paisagens a memória de séculos de autonomia, trabalho e vida comunitária.
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